sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Dogville



Dirigido por Lars Von Trier, Dogville é uma produção intrigante – para não dizer fantástica. O filme sem cenário, paredes ou trilha sonora, exige dos espectadores um pouco de paciência – devido ao seu ritmo desacelerado – e muita de imaginação. 
O primeiro contato é estranho: todas aquelas demarcações no chão passam a impressão de que estamos diante de um genuíno teatro Brechtiano. Por outro lado, apesar de denunciar a todo tempo seu caráter interpretativo, Dogville não alcança – tampouco almeja – o distanciamento. Pelo contrário: o filme nos provoca tanto quanto fosse um documentário ou uma história real. Isso porque Lars Von Trier abre mão do “supérfluo”, que geralmente distrai o espectador, e investe apenas no “essencial”: demonstrar o potencial desumano do ser humano, encabeçado pelo egoísmo, que por mais que pareça demasiadamente cruel nessa abordagem, está presente na maioria de nós (porque seria muita pretensão generalizar). 
O título no inglês precário pode ser traduzido como Vila Cachorro ou Vila de Cachorro. Há realmente um cachorro na pequena cidade fictícia, chamado Moisés; embora não-materializado, ele é uma personagem importante na trama, e é possível ouvi-lo chorar e latir de vez em quando. As outras personagens são surpresas a parte. 
No início do filme, os moradores de Dogville, aparentemente boas pessoas humildes, liderados por Tom (Paul Bettany), acolhem Grace (Nikole Kidman), uma misteriosa jovem, fugitiva da máfia. Em troca da hospitalidade, ela precisa prestar apenas alguns pequenos serviços, entretanto, com a máfia intensificando a busca, surge em Dogville um impasse: a presença de Grace colocava todos em perigo. Desta forma, para compensar o risco corrido, ela deveria intensificar as horas de serviço. 
A trama se desenrola de forma dramática: os moradores vão – um a um – revelando seus verdadeiros instintos de exploração (inclusive sexual) e humilhação sobre a bela fugitiva. Contudo, o destaque vai para Tom (Paul Bettany), que parecia ser o mocinho e se revelou essencialmente ruim dentro da filosofia que ele mesmo não sabia explicar, e a própria Grace, que na tentava de árdua de buscar sentimentos nobres nos seres humanos, acaba descobrindo a própria crueldade, escolhendo destruir a vila. 
Depois de todos aniquilados, apenas o Cachorro Moisés sobrevive à amargura implantada pelos algozes dos sentimentos de Grace. Apenas Moisés teve o valor dele acima do ser humano.