sábado, 15 de outubro de 2011

Podre


Eu fui até ela. Ela estava sentada na beira do sofá, soluçando e enxugando as lágrimas do rosto. Ela olhou pra cima enquanto eu me aproximava, e de repente mais lágrimas brotaram em seus grandes olhos negros. Sentei-me ao lado dela, e coloquei meu braço em seu ombro, tentando conforta-la. Eu sabia o que significava perder um irmão. Eu tinha perdido um, na guerra. Ele tinha sido meu herói – sempre corajoso e idealista. Quando ele se alistou, eu lembro que eu prometi que seria soldado um dia. E eu realmente me tornei um soldado, mas não pra lutar por meu país. Eu lutava outras guerras.

Ali, sentado com ela como um espectador silencioso do seu luto, meus pensamentos voltavam aos acontecimentos do dia anterior.

Tão logo o garoto chegou perto o suficiente, eu lhe chutei o abdômen, peguei minha arma, e disparei três tiros no peito. Eu olhei alguns segundos enquanto ele se contorcia no chão. Abaixei-me sobre ele, segurei suas mãos e lhe disse que eu tinha que fazer aquilo. Ele me olhou nos olhos com uma mistura de incredulidade, tristeza e indignação. Eu acho que ele morreu dentro de um minuto. Quanto mais eu pensava nisso, mais eu sentia que tudo tinha sido culpa do moleque mesmo. Ele tinha sido tolo o suficiente para nos ameaçar de informar a polícia sobre nossas ações. O patrão ficou muito zangado e me disse que eu deveria acabar com ele. Fui escolhido porque eu, pessoalmente, conhecia o menino e sabia que ele confiava em mim. Essa foi a parte realmente ruim. A traição. Esse era o tipo de soldado que eu tinha me tornado: matando pessoas fracas que confiavam em mim para pessoas poderosas que confiavam em mim. Eu tinha apodrecido.

Mas ainda assim, eu vivia. Foi o meu amor por ela que me manteve vivo. Se não fosse por ela, eu seria comido por toda culpa e todo ódio que fervia dentro de mim. Eu estava pensando em suicídio, quando a conheci. Era como se Deus houvesse enviado um anjo do céu para confortar a minha alma doída. 

Eu acariciava seus cabelos com a mão – era o mínimo que eu podia fazer. Sentia a tristeza dela como se fosse minha, mas era estranho me sentir assim, quando eu tinha acabado de matar um rapaz inocente, que era também um irmão, um filho, um amigo de alguém. Pensei que a vida é cheia de ironias cruéis como essa.

De repente ela me olhou nos olhos e disse:

– Por que as pessoas boas morrem sem razão? O que meu irmão fez para merecer isso?

Eu não podia fazer nada, além de me sentir impotente. Eu nunca tinha encontrado o irmão dela, mas sempre ouvi coisas sobre ele. Sabia que ele tinha sido um artista muito bom, um pintor. Ele tinha feito uma pintura muito bonita de sua irmã e havia mandando pra mim. O quadro estava pendurado no meu quarto, e lembrar disso me despertou uma vontade súbita de saber mais sobre ele, saber como ele era.

– Você tem uma foto dele? Eu perguntei a ela.

Ela me olhou de uma forma estranha que eu não pude decifrar. Então abriu uma gaveta, e entregou-me uma fotografia emoldurada. Peguei-a em minhas mãos e olhei para o rosto do jovem. Dizem que quando você está em um estado de grande emoção, o tempo fica mais lento. Como quando eu olhei pr'aquele rosto, e mil pensamentos passaram pela minha mente. Agora era como se Deus tivesse conspirado contra mim o tempo todo. Se havia algo em mim que não estivesse podre, apodreceu quando eu olhei para o rosto daquele garoto inocente, que eu matei com três tiros no peito.